Cinema

Cinema brasileiro no exterior: o que os festivais internacionais estão dizendo sobre nós

Quando três filmes brasileiros foram selecionados para competição em festivais europeus de primeira linha neste ano — dois em Cannes e um em Berlim —, o evento foi celebrado como sinal de uma virada. Mas o que esses filmes dizem sobre o cinema brasileiro de hoje? E o que os festivais internacionais estão vendo em nós que às vezes não conseguimos ver em nós mesmos?

As três obras têm em comum a ausência de qualquer tentativa de agradar ao olhar estrangeiro. São filmes que falam de dentro para dentro, sobre experiências brasileiras específicas — a violência urbana periférica, as tensões de gênero no interior do Nordeste, a memória da ditadura vista pelos olhos de uma criança. E é exatamente essa especificidade que parece ter conquistado os programadores internacionais.

O que mudou

"Houve uma geração de filmes brasileiros que tentava ser universal de uma forma que acabava sendo genérica. O que está acontecendo agora é o oposto: quanto mais local, mais universal", observa a crítica de cinema Lúcia Nagib, professora na Universidade de Reading, no Reino Unido, e uma das maiores especialistas em cinema brasileiro no exterior.

A mudança também é técnica. Uma nova geração de diretores formados em escolas de cinema e em festivais de curtas-metragens chegou ao longa com uma fluência visual que impressiona. "Eles sabem o que estão fazendo com a câmera. Há uma consciência estética que antes era mais rara", diz Nagib.

Os filmes

Em Cannes, Beira de Estrada, de Aline Figueiredo, concorre na seção Un Certain Regard com uma história sobre uma mulher que percorre o interior do Piauí em busca do irmão desaparecido. O filme foi rodado em 16mm e tem uma textura visual que remete ao cinema dos anos 70 sem ser nostálgico.

Também em Cannes, Noite Alta, de Pedro Salomão, está na seleção oficial com um thriller ambientado numa favela carioca que subverte os clichês do gênero ao colocar no centro da narrativa uma delegada negra de meia-idade.

Em Berlim, As Filhas do Silêncio, de Mariana Lacerda, ganhou o prêmio especial do júri na seção Panorama — um reconhecimento que deve abrir portas para distribuição internacional.

O desafio da distribuição

O sucesso nos festivais, porém, não resolve o problema estrutural do cinema brasileiro: a distribuição. A maioria dos filmes premiados no exterior tem dificuldade de chegar às salas comerciais no próprio Brasil, onde o mercado é dominado por produções norte-americanas. "Ganhamos prêmios lá fora e o brasileiro não consegue ver o filme", lamenta a diretora Aline Figueiredo.

É uma contradição que o setor tenta resolver há décadas, com resultados modestos. Mas talvez a visibilidade internacional deste ano ajude a criar pressão por mudanças. O cinema brasileiro está falando. Falta o Brasil ouvir.

BN

Beatriz Noronha

Crítica cultural e escritora. Colabora com o Correio Cultural desde sua fundação e escreve sobre música, cinema e literatura com igual paixão.