Música

O ressurgimento do choro: como a música instrumental brasileira conquista novas gerações

Numa quinta-feira qualquer no Rio de Janeiro, um bar pequeno no bairro do Catete está lotado. No palco improvisado, quatro músicos — nenhum deles com mais de 30 anos — tocam choro com uma precisão que faz veteranos balançarem a cabeça em aprovação. Na plateia, jovens que cresceram ouvindo funk e trap cantarolam a melodia de um choro composto há mais de cem anos.

Essa cena, que se repete em dezenas de bares, centros culturais e praças por todo o Brasil, é sintoma de algo que pesquisadores e músicos vêm observando com crescente entusiasmo: o choro está vivo, vibrante e, de certa forma, mais relevante do que em décadas.

"Há uma geração de músicos jovens que descobriu o choro e se apaixonou. Não como nostalgia, mas como linguagem viva", diz o cavaquinista Rafael Andrade, 26 anos, que fundou um grupo de choro em Belo Horizonte há três anos e já se apresentou em Portugal e na Alemanha.

Raízes e ramificações

O choro nasceu no Rio de Janeiro do século XIX, numa fusão de ritmos europeus com a musicalidade africana trazida pelos escravizados. Chico Buarque de Hollanda, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga — os nomes que moldaram o gênero são parte do panteão da cultura brasileira. Mas por décadas, o choro ficou associado a uma imagem de música de velhos, de roda de saudade.

O que está acontecendo agora é diferente. Jovens músicos estão chegando ao choro por caminhos inesperados: alguns vieram do jazz, outros do rock progressivo, outros ainda da música erudita. E estão trazendo influências que expandem o vocabulário do gênero sem diluí-lo.

"O choro tem uma estrutura harmônica muito sofisticada. Quando você estuda jazz e depois mergulha no choro, percebe que tem muito em comum — e muito que é único", explica a flautista Camila Pires, que toca num grupo que mistura choro com elementos de música eletrônica.

Festivais e redes sociais

O Festival Internacional de Choro, realizado anualmente em Brasília, registrou recorde de público em 2025: 45 mil pessoas ao longo de cinco dias. Grupos de choro no YouTube acumulam milhões de visualizações, e o TikTok tem sido um veículo surpreendente de descoberta para jovens que nunca tinham ouvido o gênero.

Fora do Brasil, o interesse também cresce. Grupos brasileiros de choro têm sido convidados para festivais de jazz na Europa e nos Estados Unidos, onde o gênero é recebido com curiosidade e admiração. "As pessoas ficam impressionadas com a velocidade e a complexidade. E com a alegria — o choro tem uma alegria que é difícil de explicar", diz Rafael.

O futuro

Escolas de música em todo o Brasil relatam aumento na procura por aulas de cavaquinho, bandolim e flauta — instrumentos tradicionais do choro. Projetos sociais em periferias têm usado o gênero como ferramenta de educação musical e inclusão. E uma nova geração de compositores está escrevendo choros que soam simultaneamente antigos e completamente contemporâneos.

O choro sempre sobreviveu. Mas o que está acontecendo agora parece ser mais do que sobrevivência. Parece um renascimento.

SM

Sérgio Monteiro

Músico e jornalista cultural. Cobriu festivais em quatro continentes e acredita que a música popular brasileira ainda tem muito a dizer ao mundo.